APROEV - ASSOCIAÇÃO PRÓ ENSINO VOCACIONAL
(Um debate da escola pública gratuita)
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Os Colégios Vocacionais da Rede Pública Estadual
Maria Nilde Mascellani
Outubro/1984.
Depois de 15 anos da extinção dos Colégios Vocacionais eles ressurgem na memória de muitos educadores, na busca de explicações entre pesquisadores e na ânsia de informações entre estudantes secundaristas e universitários.
Experiência
controvertida... Por ela passaram mais de 8.000 alunos, 400 professores (com
mais de 2 anos de permanência), 7000 professores em situação de treinamento e
estágio, funcionários técnicos, burocráticos e braçais além das famílias de
alunos e membros da comunidade. Segundo os professores Antô
nio Cândido de
Mello e Souza e Lauro de Oliveira Lima (Revista Visão, janeiro/1970
– “Ensino Vocacional: Renovação ou Revolução?”) foi a experiência mais
significativa na educação pública brasileira até aquela década.
Extinta em junho
de 1969 pela repressão policial-militar que a caracterizou de subversiva e
contrária aos interesses da segurança nacional, criou a partir daí um novo
capítulo de sua própria história: o penoso Inquérito Policial-Militar que durou
de 1970 a 1973 envolvendo alunos, professores, funcionários e até mesmo pais.
Hoje dele se fala como se já tivesse ocorrido há muito tempo. Em nenhum lugar a
não ser nos arquivos dos órgãos de segurança, ficaram registradas as marcas
daqueles dias e daquelas noites (quase 4 anos) de prisões, interrogatórios
intermináveis, torturas, devassas nas escolas e nas casas particulares,
punições arbitrárias executadas com o objetivo não mais de destruir a
experiência (pois ela já havia sido declarada “legalmente” extinta) mas de
destruir as lideranças, de calar as vozes e paralisar as mãos.
E esta
experiência, segundo a afirmação de um religioso amigo, funcionou como a
diáspora dos tempos apostólicos do início do cristianismo.
Aparentemente
morta, está na vida de todos quantos
por ela passaram, bem ou mal sucedidos. Para alguns a marca profunda da descoberta de uma nova educação, de uma
resposta coerente e inventiva para as indagações da juventude brasileira.
Para outros, a pedra de toque que testou com coragem as raízes do
conservadorismo e outros “ismos” que será preferível não comentar. Objeto de
amor para tantos jovens, professores e famílias que dela puderam sugar em
profundidade sua filosofia. Objeto de ódio para aqueles que por ela foram caracterizados
como o joio da educação e da cultura. Ervas daninhas que floresceram no caldo
suculento da ditadura, do autoritarismo, alimentando todas as expressões de seu
oportunismo.
Se nos dias atuais
assistimos o ressurgimento das idéias e dos ideais contidos na experiência
dos Colégios Vocacionais da rede pública do Estado de São Paulo, de outro
assistimos com tristeza o espetáculo camaleônico de transformação de figuras
medíocres e autoritárias em “autoridades constituídas” das repartições públicas
da educação neste mesmo Estado. Certamente, contradições de um período de
governo democrático que convive com o ranço do antigo regime, por sinal ainda
presente no Governo Central.
Animador para
todos os educadores é andar por São Paulo e pelo Brasil e sentir como a
experiência ressurge na vida profissional dos que a viveram, na busca de
contribuição para as formulações educacionais que hoje se fazem necessárias. E
diante do marasmo que invade as mentes depois de um longo período de
esvaziamento cultural muitos professores estão a refletir aquela experiência;
para alguns ela deveria ser retomada, para outros deveria servir de quadro de
inspiração para propostas atuais, para outros ela aparece como algo imaginário,
fantástico e distante, para outros ainda, ela evidencia o quanto se perdeu em
matéria de educação após o enrijecimento político de 1968.
Os Ginásios e
Colégios Vocacionais foram transformados no início dos anos 70 em Ginásios
Comuns. E nunca o nome foi tão próprio. Eles se tornaram escolas comuns
ao sistema vigente. E tal foi o nível de comunhão entre eles e o
sistema que a educação que neles vem se realizando, foi de nível bastante
inferior ao das escolas comuns da antiga rede. A ordem estabelecida não
permitiu que ficasse “pedra sobre pedra”. Visitamos o Colégio Oswaldo Aranha do
Brooklin e algumas das cidades do interior onde funcionavam Ginásios
Vocacionais. O que se observa na paisagem, no espaço físico, encontra um
correspondente nas mentalidades dos educadores que os assumiram. Os jardins e
espaços livres foram substituídos por muros e estacionamento de carros; as
janelas abertas, por grades com cadeados; as salas de trabalho, por grandes
depósitos de equipamentos quebrados. Um dos Ginásios do Interior, apesar da
elevada demanda de alunos na cidade, é em grande parte um depósito de coisas
velhas da Prefeitura. O que dizer então das mentes? Para que nada ressurgisse
neste tempo quase passado se adotou uma “pedagogia funerária”. Era necessário
que todos enterrassem qualquer lembrança do que nestes espaços se viveu.
Estamos agora
no tempo de ressuscitar aqueles capítulos da história da educação. Há uma
efervescência entre professores e estudantes na busca do novo ou do necessário.
É sempre surpreendente para auditórios estudantis ou de magistério descobrir ou
saber de algo mais a respeito desta controvertida experiência. Sente-se um
desejar ter vivido aqueles momentos; sente-se também a vontade de
dr construir algo semelhante. Muitos têm nos procurado para debates mais
aprofundados sobre a questão educacional hoje e dentre eles alguns estão
assumindo a árdua tarefa de ajudar a resgatar esta memória. Há os que pretendem
elaborar teses de pós-graduação universitária a partir de questões suscitadas
pela experiência dos Colégios Vocacionais da rede publica.
Fica porém para
todos nós a grande responsabilidade de registro e divulgação da experiência na
sua totalidade. Mesmo com as imensas dificuldades por não se ter materiais
documentais, pois a maioria deles foi retirada dos ginásios na violenta invasão
que sofreram no dia 12 de dezembro de 1969 por parte da Polícia e do Exército.
Não contentes começaram a levar o que encontraram nas devassas que faziam em
muitas de nossas casas.
Mas o que os
policiais e os militares talvez não saibam é que a verdadeira História não
morre. Ela está dentro de cada um que a viveu e será publicada um
dia, para que os jovens das novas gerações saibam o que já se fez, saibam
que neste País alguns educadores já deram muito de suas vidas por um Brasil
livre. E alguns ainda vivos cantam em coro a defesa de seus ideais, o canto da
libertação educacional – “Sete vidas eu tivesse, sete vidas eu daria...”
Maria Nilde Mascellani
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“Um século de lutas pela liberdade” – de 08 de novembro de 1984, p. 52.
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*Cópia cedida por Márcia
Roncatti turma de 1963 GEVOA e reproduzida
por Imma Marques para a GVive
Arquivo Banco de Dados e
Acervo do GT Memória da GVive

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